22 de março de 2012

A gente sempre usa aquela velha analogia do "vender o peixe" pra muita coisa. Vamos nos imaginar na situação. Se aparece um cliente atrás de um produto, você oferece o melhor que tem. Se o cliente tem alguma preferência diferenciada, você se desdobra para conseguir fazer da maneira que ele quer. Vender o peixe é bom, mas agradar a freguesia garante lucro por maior tempo.

No entanto, não seria inteligente você rebaixar seus outros produtos com o intuito de vender aquele lhe interessa na hora. Você não quer desagradar uma parte da freguesia para agradar a outra. Um raciocínio bem bobo, mas que o presidente do UFC, Dana White, não foi capaz de fazer, nesta quinta-feira.

Em visita à cidade canadense de Calgary para promover a edição de número 149 do Ultimate, marcada para julho, o cartola fez sérias críticas ao futebol. "Esporte menos talentoso do mundo", adjetivou.

O "insulto", como assim pode ser considerado pelos amantes e apaixonados (escrever simplesmente torcedores seria pouco) brasileiros, veio de graça. Na verdade, o esporte em questão era o hóquei, número um no Canadá. White foi questionado sobre o que achava da modalidade e disse que, apesar de não ser fã, tem adimiração pelo "talento que os jogadores precisam ter".

Dana White é o homem das declarações fortes. Só lhe falta critétio - Divulgação/UFC

Nada contra. Realmente precisa de habilidade para deslizar no gelo e enxergar um disco de poucos centímetros viajando a velocidades exorbitantes. O problema é que, para esconder seu pouco conhecimento do esporte nacional canadense, decidiu atacar o mais popular do mundo, puramente para se defender.

Até crianças de três anos jogam futebol, na concepção do chefão, que fica indignado, veja você, com o tamanho dos gols, logo ele, que vira e mexe diz ser fã da NFL, com suas traves de vários metros. Reforçando a ignorância com relação a ambos os esportes, disse que é preciso muito talento para marcar pontos quando o goleiro é do tamanho do gol (na NHL).

Se eu pudesse dar um conselho a Dana White, diria para se concentrar no ele faz bem, promover o UFC, as artes marciais mistas, e não se meter a falar de outros esportes. Chega dessa obsessão de ser o maior dos esportes. Não vai ser. Não vai por um fator histórico, por uma questão cultural.

Os brasileiros apaixonados podem não gostar das declarações, mas o maior prejudicado pode ser o próprio Ultimate Fighting Championship. A "análise futebolística" de White aconteceu apenas um dia após ele mesmo ter confirmado que o Estádio do Engenhão, tradicional do Rio de Janeiro, será palco de uma edição do UFC no Brasil. Interessante, para dizer o de menos.

Será que ele jogou fora a bela camiseta do Flu?

Não quero ser dramático e dizer que o público vai deixar de comparecer só por conta disso, óbvio que isso não vai acontecer. Entretanto, qual a maior figura que tem o UFC hoje? Dana White é mais notícia que Anderson Silva, dá mais entrevistas que Georges St. Pierre e tem o nome mais vezes citado e a cara mais vezes estampada em qualquer coisa relacionada ao UFC do qualquer lutador.

Construir uma imagem é bom. Freguês não gosta de comprar em estabelecimento mal dirigido, com péssimo atendimento, mesmo com produto bom, bonito e barato. E ele sabe disso. Deve estar pensando que falou bobagem, como já aconteceu um outro tanto de vezes. Faltou-lhe perspicácia, mais até do que informação.

White esqueceu que o futebol bancou o sucesso de Anderson Silva no Brasil. Pergunte ao Corinthians. Consequentemente, bancou o sucesso definitivo do MMA, criando um novo ídolo nacional. White esqueceu que o primeiro país (depois dos EUA) para onde mais seu evento viaja, a Inglaterra, é outro apaixonado pelo esporte das redes grandes.

Além disso, José Aldo, o campeão peso pena que fará a luta principal na edição de Calgary, é mais um dos patrocinados por grandes times. O futebol já estabeleceu relação íntima com o MMA e Dana White nem ficou sabendo, parece.

Ninguém é obrigado a gostar de um esporte. "Não suporto futebol", disse ele. Normal. Eu não suporto Hipismo. A diferença é que o que eu falo (acredito) não atravessa continentes de forma impactante. As pesoas querem ouvir o que ele tem a dizer aqui ou na China. Ele estava no Canadá, mas a internet chega no Brasil, por mais que Chael Sonnen não acredite.

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